Os 5 Desafios do Mercado da Formação

5DesafiosFormacaoO mercado da formação está a atravessar uma fase de profunda renovação e de construção de uma nova dinâmica, no nosso país. A recente crise económico-financeira e a queda dos indicadores da atividade económica provocaram uma contração do mercado, revelando as fragilidades de inúmeros projetos empresariais e pessoais. Muitos deles, devido à sua insustentabilidade financeira, encerraram ou mudaram de ramo, mesmo que a sua qualidade não tenha sido questionada. É o funcionamento (a)normal do mercado e da economia.

Simultaneamente, um elevado número de empresas e profissionais manteve ou subiu os níveis da sua atividade, consolidando e desenvolvendo a sua oferta de serviços. Por vários caminhos, conseguiram atingir um alto nível de diferenciação e oferecer valor, sendo aceites e reconhecidos pelo mercado.

Neste ambiente de redefinição, ainda cheio de contrastes e incertezas, importa discernir os movimentos que estão a ocorrer. Na minha opinião, os diversos operadores no mercado da formação precisam de encontrar resposta a cinco desafios.



1. Foco nas pessoas e orientação para resultados.

A formação é um instrumento de mudança e melhoria das pessoas e das organizações. A investigação empírica sobre o impacto da formação tem demonstrado que as empresas mais bem sucedidas são aquelas que investem, de forma consistente, no desenvolvimento das suas pessoas. Para estes resultados contribuem não só as atividades do período da formação, mas, também, o envolvimento dos participantes, antes e depois da formação.

Isto significa que o gestor que decide organizar formação clarifica, com grande rigor, o porquê e o para quê da formação. E esta informação deve ser do conhecimento antecipado dos participantes. Além disso, estes precisam de poder aplicar no seu trabalho os novos conhecimentos e competências.

Esta é a principal razão porque as pessoas e as empresas investem em formação: para incorporar e desenvolver a capacidade de fazer melhor.



Os novos conhecimentos e comportamentos têm de ser transformados, pelas pessoas, em processos de inovação e melhoria, acrescentando valor aos produtos, serviços e processos de trabalho.

Está a mudar a forma de comprar e organizar formação. As empresas bem sucedidas usam a formação como um recurso estratégico interno para o seu próprio desenvolvimento, procurando melhorias concretas no desempenho dos seus colaboradores.



2. Re-centrar o papel dos Formadores.

A missão do formador é contribuir para o desenvolvimento das pessoas, das organizações e da sociedade. São os formadores que criam e difundem o conhecimento necessário para a promoção da criatividade e da inovação, a mudança da atitude e das mentalidades, a geração da iniciativa e o reforço das qualificações.

O papel do formador é ajudar a transformar o conhecimento disponível em soluções úteis e aplicáveis, que respondam às necessidades de melhoria das pessoas.



Este papel não é substituível pela intervenção de outro profissional. Os resultados visados pela intervenção do formador só podem ser assegurados pela via da qualidade da intervenção técnica e didática e da sua atuação segundo as normas deontológicas da profissão. Para isso, é requerida uma formação específica.

Tanto os formadores contratados externamente como os formadores internos desempenham este papel crítico de apoio à estratégia de desenvolvimento da gestão da organização.

Os gestores e as organizações, quando decidem realizar formação, têm nos formadores os seus parceiros de primeira linha. Conhecendo o desafio e a organização, os formadores operacionalizam os meios e os métodos para construir soluções e atingir os resultados visados.



3. Mais e melhor investimento.

É sabido que grande número de operadores do mercado se tem tornado dependente do co-financiamento público para o investimento na formação ou até mesmo para assegurar a sua viabilidade. Se é verdade que os fundos comunitários permitiram a expansão do mercado da formação, também é verdade que muitos ainda esperam pelos novos fundos comunitários, que tardam em chegar de forma massiva, para reanimar a sua atividade. As dificuldades de tesouraria e os incumprimentos que ocorrem nestes casos são por demais conhecidos.

Ora uma nova prática está a surgir. O dinheiro aplicado na formação é entendido como investimento e não como despesa, porque deve visar resultados e não sustentar a operação interna das empresas.



Existem diversas opções disponíveis que contribuiriam para a consolidação do mercado da formação: parcerias, fusões, aquisições, etc. Decisões lúcidas, corajosas e objetivas que poderiam garantir futuro para projetos empresariais e que tornariam o mercado da formação mais robusto e competitivo, porque menos dependente de ajudas públicas e mais centrado numa oferta diferenciada.

Outra medida que contribuiria muito para a credibilização do setor e para a sua própria sustentabilidade seria a adesão pública à iniciativa de pagamento no prazo acordado, da ACEGE — "uma empresa que se preza, paga no prazo". Este desafio não é apenas do mercado da formação. Por isso, sabe-se que as empresas que têm esta boa prática são das mais eficientes.



4. Definição de normas e códigos de ética.

Em 2014, a Associação Profissional de Formadores redigiu, aprovou e tornou público o Código Deontológico de Formadores, numa iniciativa inovadora e inédita no setor. Este código enuncia os valores e define as regras do comportamento profissional que todos devem esperar dos formadores.

No código deontológico de formadores são estabelecidos, com clareza, os compromissos éticos do formador: compromissos com a profissão, os colegas, os clientes, as empresas e as pessoas.



Os formadores, membros da Associação, obrigam-se a seguir estes princípios e a cumprir estas normas no exercício da profissão.

O próximo passo — que todos desejamos que seja dado brevemente — será o de as empresas de formação, que estão organizadas em mais do que uma associação, tornarem público um acordo entre si com regras éticas que se comprometem publicamente a seguir ao operar no mercado da formação, a exemplo das empresas de outros setores de atividade, como o do marketing, por exemplo.

Formadores e empresas são parceiros que contribuem, cada um na sua vertente específica, para as boas práticas e os melhores resultados da formação nos clientes.



5. Diálogo entre as Associações do setor.

Os diversos operadores do mercado da formação, formadores e empresas, têm constituído diversas associações setoriais, ao longo dos anos, que visam debater os problemas do setor. Podendo haver — e há, de facto — interesses diferentes ou até divergentes entre estas associações, também é verdade que aquilo que as une é muito mais importante do que as razões que as podem separar.

Assim, impõe-se constituir uma plataforma de diálogo e partilha entre estes representantes associativos que permita identificar aspetos críticos de debate e construir consensos sobre a melhoria da qualidade dos serviços e das condições de negócio, da clarificação das regras da concorrência e da definição de boas práticas.

Ao mesmo tempo, tornar-se-á possível iniciar um processo consistente de sensibilização dos poderes públicos para a necessidade urgente de atualização e harmonização da legislação e regulamentação existente, assim como do funcionamento dos diversos organismos públicos que tratam da formação.

Uma melhor regulação e fiscalização efetiva geram maior dinamismo e mais concorrência. Logo, uma oferta formativa mais diversificada e qualificada e, também, mais próxima das necessidades de desenvolvimento das organizações e das pessoas.

Fica o repto e o apelo!





Conclusão

O desenvolvimento do mercado da formação depende, em primeira linha, dos próprios operadores e profissionais, pessoas e empresas, que nele atuam. Concorrência aguerrida por meios leais e legais, mais e melhores negócios, maiores eficiência e qualidade, prestígio e credibilidade, dependem do contributo de todos. Estamos preparados?


Nuno Queiroz de Andrade
Presidente da Associação Profissional de Formadores



blog comments powered by Disqus